Páginas

sábado, 20 de fevereiro de 2010

RELATOS DE (PÓS) CARNAVAL - Por que no Ilê não (deveria) sai(r) branco

O Ilê surgiu com a proposta de dar uma resposta aos blocos carnavalesco que não permitiam que negros participassem de seus blocos. No tempo das mortalhas e mamãe-sacodes pra trás pedia-se, inclusive, foto para associar-se aos blocos e cada "ficha" passava por avaliação a fim de se escolher quem podia e quem não podia entrar em determinada agremiação. 
Para além disso, e principalmente, o Ilê e outros blocos afros surgiram para elevar a estética corporal e cultural dos negros em diáspora jogados aqui nesse grande quintal de América. Portanto, se é pra falar e mostrar estética e cultura Afro, nada mais justo que nós mesmos o façamos. Afinal, nós não precisamos passar procuração pra branco nenhum, como se já não bastassem as indevidas apropriações que Danielas Mercurys e Cia Ltda fazem por ai.

Se quiser curtir cultura afro, é só descer pra Barra que nossa amada Dani diz que a Cor dessa cidade é ela, o canto dessa cidade é dela e ninguém disse o contrário. Se quiser curtir candomblé elétrico, você também pode ir reverenciar Oyá chamando egun na rua... "oyá te te...oyá te te, oyá.."
Assistimos Chiclete, Ivete, Asa e tudo o mais da pipoca, por que vocês não podem assistir o Ilê do lado de fora também? A gente sente os empurrões o tempo todo e vocês não podem?!
Não sai branco no Ilê por que se a gente dá o dedo, vocês tomam o corpo, os turbantes, os tambores e o resto todo.

Cada um no seu cada um, deixe o cada um dos outros. Já chega de apropriação da nossa cultura.
Agradecemos muito a reverência de vocês ao que produzimos, mas antes de reverenciar, vocês vaiaram bastante e agora que há uma possibilidade de rentabilidade, também não dá pra passarmos para as suas mãos.

Além disso, apesar de todos os ganhos de espaços que tivemos, nossa cultura ainda é tido como exótica. E nossas roupas coloridas e turbantes enormes não são fantasias de carnaval de marchinha pra tirar foto e achar graça no dia seguinte. Nossa roupa é "a simbolização do negro africano", é o resgate da nossa ancestralidade e é a repatriação que não pudemos fazer adentrando navios (ou aviões) de volta pra África. É a repatriação no nosso coração palpitante e nossas negras peles arrepiadas, o resgate da musicalidade africana nos tambores afro-brasileiros.

Certamente qualquer branco que leia tudo isso achei que há um tom muito passional para falar de roupas coloridas. Se é isso que você sente, é justamente por isso que você não pode sair no Ilê. Por que os pretos sabem do que estou falando e é isso que o fazem pertencentes ao tapete negro na avenida. Pertencimento que branco nenhum sente nem vai sentir. Se você entende e sente isso, mesmo tendo pele clara: hora de acordar e despertar pra sua identidade.

Só pra ficar mais elucidativo, vamos rememorar aqui o Gandhy. Olhe quanto filho-de-papai desce de seus apartamentos da Graça pra vestir a roupa branca e "pegar mulher" trocando colar por beijo??
O tapete branco aumentou, mas a essência tá se perdendo por causa deles, os brancos que não sabem nem por que foi que o Gandhy surgiu e enchem o pescoço de diloguns e monjilós brancos e azuis comprados em feiras misturados aos colares profanos pra trocar por beijo. Pergunte a algum deles o que é um Padê pra se perceber como não tem dimensão do que é a história daqueles antigos associados/fundadores. Ninguém vai lá dar de comer a Exu e a avenida vem trazendo a cada ano um número maior de corpos inflados a bombas em busca de desordem e Elegbara não deixa por menos: o tapete branco está a todo tempo sendo manchado de sangue.

Se querem mais exemplos, vamos ver o que aconteceu com o Comanche. Confesso que não acompanhei como se deu a história e os desdobramentos de desgastes da Associação, mas fiquei estarrecida ao ver o trio passando com uma banda de pagode e 3 mulheres de tanguinhas "todas enfiadas" simbolizando o povo indígena, mas precisamente, os Comanches. Acho que me deu até uma ponta de ciúmes ao vê-las quebrando até o chão, queria que isso ficasse só pra mim e mais umas dezenas que mulheres que não precisam representar a cultura indígena no carnaval.

Isso tudo mostra o quanto é difícil resistir culturalmente no pseudo-carnaval-da-diversidade. No Ilê não sair branco é também mecanismo de defesa e, sobretudo, resistência. 
No carnaval do Ouro Negro, a preciosidade é de Aluvião.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

RELATOS DE CARNAVAL (II) - Guiguio sauda Léo Santana

E lá vem o tapete negro descendo a avenida sete, passando pela Casa de Itália. Lá vai o Parangolé tocando o hit do carnaval e, de repente, no meio dos tambores, se ouve Guiguio gritar: "É isso ai, meu irmão. Parabéns pra você, Léo que está chegando com tudo trazendo o som do guetho para as paradas de sucesso do carnaval. Rebolation também é som da negrada!!!"
Certo que não foram exatamente essas as palavras, mas o sentido está perfeitamente descrito. O que se pretendeu foi elogiar e lembrar que aquele gostosão que arrasta a massa rebolando também é parte do Ilê Aiyê, do mundo negro, que ele saiu de alguma quebrada para estar ali em cima daquele caminhão cheio de caixa de som e que para tanto teve muito que suar.
Achei interessante, para além do que foi dito, a espontaneidade com que Guiguio se pendurou na grade do seu trio para acenar e saudar aquele jovem preto que tava lá do outro lado "no rebolation tion tion". E depois, só aplausos, inclusive os meus!

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

RELATOS DE CARNAVAL (I) - Pipoca com Chiclete

Segunda-feira de Carnaval, circuito Osmar, bloco desce, bloco sobe e o Camaleão passou levando seus ricos foliões que desembolsaram mais do que eu ganho no mês pra passar 3 dias ao som de Gu dá dá com a cara cheia de protetor solar e feição apática.
E olhando não tem como não perceber que quem curte De verdade o Chiclete é quem está ali beirando ao corda, tomando empurrão e revidando com uns socos e alguns logo logo levados pela rótamo, rondesp, caatinga serrena... qualquer da roupa marrom em sua mais variadas tonalidades e níveis de truculência.
Chiclete volta e eu lá de cima do apartamento, olho pela janela e só vejo uma fileirinha de abadás laranjas espremida em meio a uma massa. Sim, a pipoca engoliu o chiclete!!! Acho que foi a cena mais linda e mais emblemática que vi em todo o carnaval. A massa excluída respondendo à altura e espremendo aquela massa pálida e sem fôlego, mostrando de quem é a cidade e de quem (pelo menos) deveria ser o carnaval.
Seria uma delícia de se ver se, logo também não se pudesse notar que a PM resolveu trabalhar de cordeira do Chiclete posto que fez um nada discreto cordão de isolamento entre o bloco e a pipoca.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

21 de Janeiro – Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa

Uma homenagem a Mãe Gilda de Ogum, que representa todos os adeptos de religiões de matrizes africanas que passaram e passam por situações de opressão no exercício de sua fé. Esse foi o fundamento da edição da Lei que decreta que o dia 21 de Janeiro é o Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa.
Apesar do episódio emblemático que deu origem à data e que é apenas um dos exemplos dos muitos ataques que os religiosos de matrizes africanas passam, combate à intolerância religiosa exige que façamos uma reflexão minuciosa no nosso dia a dia.
Certa feita um amigo me perguntou por que eu não aceitava os folhetos que os evangélicos distribuíam. Apesar de haver quem entendar ser “intolerância às aversas” (esse negócio de preconceito invertido pegou mesmo!!!), não o é. O fato é que, ao distribuir aquele folheto, aquele religioso cristão está querendo me vender o Deus dele e Deus não se vende, pelo menos não na minha religião que é a religião dos escolhidos. E entendam por escolhidos todos aqueles africanos em diáspora (ou não) que sentem e tem a presença espiritual advinda de um ilê, centro de mesa branca, abassá ou o que o valha. Os escolhidos, para nós, não são os salvos do juízo final e sim os prestigiados pela herança africana ancestral.
De todo modo, voltando ao assunto, a questão é que eu não preciso daquele folheto se eu não estou à procura de um Deus nem de uma salvação, posto que já estou salva. Na verdade, acho insulto. No momento em que você tanta convencer o outro da perfeição e imprescindibilidade de seu Deus você está negligenciando e menosprezando toda e qualquer outra forma de manifestação de crença no divino. A propósito, eu não ando distribuindo contas por ai.
O dia 21 de janeiro representa cada conta que colocamos no pescoço, cada sexta-feira que vestimos branco, cada benção que a gente pede e cada cristianização que a gente rejeita. Afinal, todos nós viemos de um histórico de cristianização natural no país em que nascer e ser batizado faz parte da trajetória de qualquer criança e a opção religiosa só vem depois da crisma, quando se faz a primeira decisão: continuar o não católico; e, só depois, se pergunta e se dá a oportunidade de experimentar outras faces do divino.
Se Jesus Cristo morreu para a redenção de seus filhos, Mãe Gilda de Ogum morreu em prol de nossa libertação mental das garras das instiuições e sociedade racista e perseguidora das religiões de matrizes africanas.

Que Ogum mesmo esteja conosco, abrindo nosso caminhos.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Haiti – suas crises também são minhas

Como africana em Diáspora, tanto quanto os afro-haitianos, cada cara de dor estampada nos tablóides me causa um incômodo desconsertante como quem acaba de ver um parente passando fome e está sentado à mesa posta e farta.
Mas não é a dor de ver o sofrimento e desespero deles, é o desconforto de quem não está fazendo nada diante daqueles açoites que marcam a carne ainda hoje.
O que aconteceu no Haiti pode ter sido catástrofe natural, mas o tratamento pós-desastre é que nunca vai ser comparado ao que se daria a qualquer terra loira européia que tivesse passado por algo parecido. Afora as explicações cientifissíssimas que foram dadas pelo pastro norte-americano que associou a desgraça haitiana a pactos com o demônio em prol de sair das algemas da colonização francesa. E o Cônsul? Macumba amaldiçoou aqueles povos e as religões de matrizes africans mais uma vez são responsabilizadas pelos males do mundo à revelia de seus praticantes. E Arnaldo Jabor? Povos primitivos e bárbaros. Primitivos, sim, posto que primitivo é o que vem primeiro e somos mesmo os primeiros habitantes desse mundo e toda linhagem da raça humana de nós surgiu (vou acreditar que ele usou o termo nesse sentido). No entanto, bárbaros não somos, nem nunca fomos, afinal, esse não foi o povo deorigem germânica que invadiu o Império Romano séculos atrás? O não enfadonho e intelectual Jabor devia saber disso, sobretudo por que esse povo tá mais lá pras bandas do sangue dele, do que do nosso.
Todo dia um vídeo, uma foto, uma notícias e uma dor nova. E os braços atados, como doem. Doem como de os ossos de meu coração invertebrado, de repente, estivessem torcidos.
Doações, cartas públicas de solidariedade, notas de repúdio ao Cônsul, adoção de crianças órfãs, embarque para ajudar os feridos e desabrigados: tudo em plena validade. Só não sei do despertar do amanhã na História desse país. Aquele a quem, depois da exploração, só restou o desprezo da comunidade internacional, agora tem sobre si os olhos do mundo para ver a sua derrocada fatal.
E eu?
No âmago da minha inutilidade, choro!
Ou:
penso no Haiti, rezo pelo Haiti!
Isso por que suas crises são tão minhas que, como ele, também não sei pra que lado vou.

domingo, 17 de janeiro de 2010

E quem é mais militante que ele?

Dormi pensando naquela imagem, a imagem de meu velho pai. Aquela pessoa por quem durante muito tempo não sabia o que sentia, mas acho que não sentia nada… a indiferença.
De repente vi bulinar aqui dentro um amor que não sabia que sentia ou talvez tenha surgido agora, por que é forte como nunca tinha sentido antes por ele. Talvez o orgulho e a insistência dele em um bom relacionamento tenham fomentado isso. Não sei ao certo, mas o fato é que é isso: um amor muito grande. Talvez isso causasse estranheza em qualquer pessoa posto que amor paterno é quase sempre natural e coloco o “quase” por que eu mesma já estou nessa exceção.
Só sei que ontem acordei feliz e tranquila como uns bons banhos de folhas e outros ebós têm me permitido ficar. Me planejei toda e, nos meus planos, não ficou de fora a ida ao Shopping comprar um presente lindo para meu pai que há anos não presenteio. E apesar de parecer normal, tendo em vista ser o aniversário dele, se tratando de nós dois, não é. Isso por que, sendo de veneta como só eu sei ser, só dou presentes a quem quero, quando quero e se quiser muito. O que acaba me fazendo ir a aniversários de familiares de mãos vazias e, num domingo qualquer de agosto, aparecer na casa de uma prima com um perfume que achei que seria a cara dela, mesmo seu aniversário sendo em janeiro. (e talvez em janeiro eu chegue de mãos vazia!!!)
Enfim, programação feita e cumprida, lá vou eu e meus contreguns pra evitar carregos alheios e um belo presente em mãos. Encontro irmãos, tios, primos, meio mundo de parentes que falam comigo como se eu fosse velha conhecida e ainda dizem sentir saudade. Fico feliz, mesmo sabendo que metade é falsidade e a outra é loucura. Mas eu gosto, gosto do clima familiar (que inclui, obviamente, a já citada falsidade), gosto daquele pagodão rolando no som, homens, mulheres, crianças e as véias fogosas todas quebrando até o chão. Uma delícia!!!
Saí de lá a contra-gosto, por causa do horário e pela falta de um carro que me atormenta. Queria ter ficado pra assistir mais um pouco daquele sorriso cansado de meu pai que, mesmo fadigado, não conseguia esconder o contentamento em me ver envolvida com todos. Por trás, algums outros motivos dignos da mais plena felicidade.
Espero que ele tenha feito essa reflexão, mas acho que não o fez: o fato é que lá, diante de mim, em meio ao pagodão das véias fogosas, estava um homem completando 50 anos, com 6 filhos que não foram perdidos pela marginalidade, nem para uma bala achada de algum revólver policial, com um diploma de Bacharel em Direito em mãos e às vespera de fazer sua prova da OAB. Ali não estava só aquele Geraldo, meu pai e que eu tive diversos impasses durante os 21 anos de minha vida. Ali estava o homem preto da comunidade de itapuã, que subia e descia descalço para a praia, que tem 5 irmãos que alcançaram, no máximo, o ensino médio. Ali está o homem que cresceu com os primos de milhares de graus que nunca tiveram nenhuma perspectiva de adentrar a Academia por que sequer têm a verdadeira noção do que aquilo significa, qual sua importância ou razão de ser e até acham que aquilo não é pra eles: preferem suas redes de pesca, suas barracas de praia, seus subempregos e ai se vai a perpetuação da marginalização dos nosso negros na sociedade dos diplomados brancos.
Um homem negro de 50 anos estar vivo, por si só, já é grande motivo de contentamento diante das intempéries pelas quais nossos negros e negras têm passado, sempre achando quem lhe aponte o dedo, senão uma arma.
E um homem negro, aos 50 anos conseguir realizar seu sonho de ser Advogado é de se tomar por referência, inclusive por que, ele esteve na vanguarda de seu tempo já pelo simples fato de ter sonhado com isso e mais ainda por ter percebido que essa podia ser uma realidade palpável.
Mas ninguém mais precisa toma-lo como referência por que ele já o é para todos aqueles que estiveram do seu lado na boêmia juvenil pelos bares de Itapuã, para seus irmãos, seus sobrinhos, filhos e até seu neto de 2 anos (que, no tempo certo, vai entender a dimensão disso).
E no final de tudo, ele é mais militante do que qualquer delegado das plenárias do CONNEB, do que qualquer conferencista do CONSEG, do que todos os secretários e ministros que passaram pela SEMUR, SEPROMI e SEPPIR. Isso por que foi ele quem abriu o universo de possibilidades de todas aquelas pessoas com quem tanto ele subiu e desceu e estavam ali naquele pagodão bebendo, não o seu defunto, mas sua vitória, sua satisfação, o novo homem que se tornou, com direito a beca, colação de grau, anel no dedo e choro, mesmo tendo adquirido o hábito da leitura lendo jornais velhos achados na feirinha de itapuã com seu peculiar cheiro de peixe e mar.
Subimos e descemos discutindo tudo que achamos pertinente e nos achamos grandes militantes, mas mal sabemos qe os militantes de verdade estão ali do lado, na labuta, pra sair de algumas estatísticas de mortalidade, violência, pobreza, miserabilidade, analfabetismo, sub e desemprego para entrar nas estatística que tanto discutimos nos GTS de nossos infidáveis encontros e conferência.
Em homenagem a meu pai: José Geraldo Ramos, da comunidade de itapuã, 50 anos, bacharel em Direito, pai de 6 filhos vivos e sem passagens na polícia.
In memorian a minha mãe: Gildélia Batista Pires, da comunidade de Castelo Branco que a vida foi ceifada pelo destino enfadonho, mas que foi, durante os mais de 20 anos de relacionamento, a mulher negra que militou mais do que meu pai e, inclusive, também é grande responsável pelo se sucesso, mas que não teve tempo de escrever seu pedacinho na história.

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

EPARREY, OYÁ!!! OGUNHÊ, MEU PAI!!

E nem  quero saber dessa brincadeira de pedir a benção. Simplesmente não contenho em mim essa vontade de escrever, de botar pra fora a feliciadade que foi o processo do renascimento dessa Oyá e de sua filha. Foram dias de ansiedade, momentos de tensão, correria, telefonemas, noites mal dormidas, sonhos, pesadelos, provas mal feitas, livros mal estudados, saudades, amores, descobertas, acolhimento. Não contive em mim a ansiedade como se fosse meu o Orixá que nascia.
Choro, muito choro ao ver sair daquele quarto uma Oyá no corpo de uma mulher forte e linda cuja cabeça era toda sua. Ela reinava soberana, forte, enorme, poderosa, iluminada com ares e postura da rainha que é e não tem como deixar de ser.



Agora, sim:
sua benção, Darewá?!
sua benção, Oyá?!!

domingo, 2 de novembro de 2008

Yes, We Can!!!

Jay-Z, rapper Rosa Parks sentou para que Martin Luther King pudesse andar. Martin Luther King andou para que Obama pudesse correr. Obama está correndo para nós possamos voar. Mal posso esperar até 5 de novembro e poder dizer "Olá, brother president". Eu não posso te dizer em quem votar. Tudo que posso fazer é te dizer para votar.
E eis que em estamos à iminência de ver um negro dominando o maior império do mundo. Quem dia, a maior potência econômica do mundo que também tem enorme potência de racismo mundial.
E o que é esse fenômeno Obama? Um furação, um terremoto, alguma tsunami?? Não! Mas a única diferença entre ele e quaisquer desses fenômenos é que ele não vem diretamente de uma revolta da natureza. Mas de semelhança, resta aludir a ação devastadora que ele causará nas discussões raciais no mundo inteiro e, sobretudo, no EUA. O que será dos mais conservadores racista norte americanos ao se darem conta de que têm sua nação sob a égide de um presidente negro, filho de um homem africano e fruto de uma relação inter-racial e inter-religiosa. Mulçumano queniano que casa com Cristã americana, tem um filho negro que aos 47 anos pode se tornar presidente da nação que odeia mulçumanos e neocoloniza países africanos. Quem diria??

sábado, 4 de outubro de 2008

A estratégia é ser coerente!

Eu pensei em me manter distante de qualquer discussão nesse sentido, até por que estou meio afastada das atividades do movimento negro em decorrência de questões e ocupações pessoais que têm tomado quase todo o meu tempo e políticas que me induzem a tal afastamento. Todo caso, ainda que eu estivesse a pleno vapor, não faria campanha para fulano ou ciclano pois EU, GABRIELA RAMOS, não me imagino tão próxima de estruturas partidárias abraçando uma legenda que, com certeza, não me contemplaria. Mas agora, literalmente às vésperas do pleito, eu quero falar mesmo que ninguém queira ouvir!! hehehehehehhehe....
Eu confesso que passei todo esse tempo de campanha política entre dois candidatos: o petista e o "da esquerda de verdade". A verdade é que, desde que comecei a elucidar algumas coisas em minha cabeça acerca de questões raciais, eu cheguei à conclusão (para alguns, controversa) de que partido nenhum até então existente seria capaz de verticalizar a questão racial como é o desejo das/os negras/os que fazem essa discussão cotidianamente. Direita, Centro, Esquerda (de verdade ou de mentira), nenhum deles é em sua essência, PRETO/A. Mas, em contrapartida, não se pode esquecer que devemos ocupar todos os espaços e, como candidaturas independentes são proibidas pela Constituição Federal e pela legislação eleitoral, o que nos resta é fazer com os partidos o que a todo tempo eles têm feito conosco: usá-los.
Mas apesar disso parecer óbvio, eu fico me perguntando, o que têm feito as negras/os filiados a partidos?? O voto deve ou não ser racializado?? Certa feita, eu tive uma breve conversa com um preto filiado a um grande partido que sempre disse que pautava a questão racial dentro do partido e que nós tínhamos que ocupar todos os espaços. Então, perguntei a ele: Olívia Santana é pré-candidata, se ela disputar com um candidato branco do seu partido, vc votará em quem?? Ele nem pestanejou em responder que votaria no candidato do partido. E não bastando, prontamente disparou a tentar desconstruir a imagem da Mulher Preta como pretexto para não racializar o voto.
Isso aconteceu em novembro do ano passado. Hoje, quase um ano depois, menos de 24 horas antes das eleições a situação é a seguinte: - a candidata preta sofreu um golpe do partido que ele é filiado e que se acha o supra-sumo da esquerda. Olívia Santana, tendo sido chamada pra negociar uma vice-candidatura, no dia seguinte ficou sabendo pelo jornal que todas as coligações estavam fechadas e que ela, obviamente, não era a vice, nem tinha mais opção de coligação. A preta, agora é candidata a vereadora como tem sido a tantos anos. Nas propagandas políticas nenhum negro candidato a prefeitura (no máximo, vices) e candidata negra, então... - em contrapartida, nos comícios, carreatas e, sobretudo, segurando bandeiras e distribuindo santinhos tomando o sol escaldante de meio-dia na cabeça, lá estão, todas/os as/os pretas/os. - amanhã também certamente serão elas/es que correrão e receberão os cacetetes nas costas quando supreendidas/os (em alguns cantos da cidade) fazendo boca-de-urna pela promessa de uns 10 conto que na maioria das vezes, passada a eleição, ninguém verá a cara. É inevitável que eu me pergunte o que tem sido feito dos nossos quando entram nos partidos. Será que todos eles acreditam na que podem mudar, dessa forma, mantendo a lógica da submissão, da prisão a uma estrutura que não fornece nenhuma fiel sensação de pertencimento, que usa e marginalizada como todo o sistema macro(estatal). Sim, marginaliza!! Onde é mesmo que estão as pretas/os dos respectivos partidos senão nos diretório fazendo a base pra brancos subirem?? Sem nas beiradas, esperando alguma migalha. Nas marges, esperado as rebarbas de apoio pra serem candidatos a vereadores e inchar o partido para, em última instância, terem mais tempo de programa eleitoral a TV e dar visibilidade à foto e ao número do candidato branco a prefeito. Ou será que estão esperando pelo seu quinhão, visando qualquer outra coisa que não a ascensão do nosso povo?? Todo caso, qualquer uma dessas hipóteses e qualquer outra, são frustrantes. Eu realmente cogitei a possibilidade de votar no candidato petista, mesmo tendo todas as minhas restrições à sua face cínica, ao seu partido no momento precisa pongar na imagem de um único homem pra estimular qualquer pinguinho de credibilidade pois não se sustenta em si mesma (Lula é Lula, PT já foi o PT... incrivelmente, um partido inteiro, precisa de um único homem pra não se perder. rsrsrs...) Enfim...com todas as restrições, pensei em ter um voto estratégico desacreditando que Hilton pudesse chegar ao segundo turno e temendo descentralizar os votos e contribir para uma "tragédia eleitoreira" que seria optar entre ACM, O Neto, Imbassahy ou João Henrique. Também confesso que ponderei bastante quando lembrei das bases dos partidos coligados Hilton (nem vou tecer comentários pq algumas pessoas dessa lista têm conhecimento e vivência suficiente pra entender o que estou falando). Mas, convenhamos, tragédia eleitoral (pra não dizer eleitoreira mesmo) nós já estamos vivendo. Em 30 anos de movimento negro, ainda não há uma representatividade consolidada que fale por nós e tenha angariado apoio e força suficiente pra enfrentar uma eleição municipal. Pode parecer que a culpa é do movimento negro, dos seus desleixos, suas disputas internas, etc. Mas eu não consigo acreditar que seja só isso. Estamos aprisonados nesse sistema. E, apesar deparecer piegas, a opressão se faz sempre forte e operante. Isso por que, citando novamente Olívia Santana, ela tomou uma rasteira. E por mais que alguns digam que a questão não é só essa, que por trás tenha a complexidade das relação intra e extra partidária. Mas vamos focar no que nos interessa: uma mulher preta podia estar nos representando e não está. O partido a que ela pertence, pouco importa. Afinal de contas, partido por partido, (EM MINHA OPINIÃO) nenhum deles nos representa, nenhum deles verticaliza as nossas demandas, nenhum deles tÊm uma legenda preta, em nenhum dos seus estatutos consta que é um partido de preta/o para preta/o. Por isso mesmo, independentemente do que digam, voto por voto, dou a QUASE todos os partidos, excetos os cristãos e o da linhagem Carlista por serem o supra-sumo da opressão branca. Hilton, tem sido o que todos nós somos desde sempre, persistentes e sobrevivendo da nossa ousadia. Afinal, quem acha pouca ousadia querer iniciar o carreira em cargos eletivos pelo Poder Executivo Estadual e depois no Municipal?? Lembrando Roque, personagem de Lázaro Ramos em Ó Paí Ó, "a lei da minha raça é resistir!!!" EU QUERO HILTON 50, NA CAPITAL DA RESISTÊNCIA!!!

segunda-feira, 5 de maio de 2008

Nina Rodrigues Não Morreu!!!

Tenho que externar, não de imediato meu repúdio, mas, em certa medida, minha satisfação em ver as declarações do Sr. Antônio Natalino Dantas acerca do desempenho dos alunos de medicina da UFBA curso este, que era coordenador. Ele é o único racista sincero que existe naquela Universidade!!! Quem dera que todos os racistas fossem como ele: algumas dificuldades no enfrentamento do racismo institucional seriam amenizadas.
A Universidade Federal da Bahia, assim como maioria (senão todas) as nossas instituições, é racista. O que o EX(já que renunciou) Diretor da Faculdade de Medicina fez, é apenas reflexo do racismo da instituição, como um todo. A opinião dele, com certeza, acha repouso em tantos outros ouvidos e mentes (mas não em bocas), mas estas/es, diferentemente, não dão a cara a tapa. As declarações vieram em bom momento para cessar algumas vozes insistentes em dizer que nós, negras/os vemos racismo onde não tem e que a UFBA não é excludente, que dirá racista.
Mês passado, ocorreu lá nessa mesma instituição, o ENNUFBA - Encontro de Estudantes Negras e Negros na UFBA. A divulgação estava ocorrendo quando, na comunidade do Orkut da referida instituição, um tópico foi aberto, por um branco, se posicionando contra o encontro. Segundo ele, um evento desse tipo caracterizava-se como racismo às aversas e que nós, negras/os, estávamos discriminando e excluindo as/os brancas/os. Diante disso, uma discussão enorme deslanchou, rendendo mais de 1000 postagens. Enfim, o encontro ocorreu, foi um sucesso e, inclusive, essa "reação branca" à nossa articulação, repercutiu nas discussões feitas lá.
Diante do que foi dito pelo Sr. Ex Diretor da FAMED-UFBA Antônio Dantas Antes, agora eu quero ver quem ainda sustentará a posicionamento de que a instituição não é racista, nem excludente, apenas meritocrática. É certo que muitas/os tratarão esse fato como caso isolado e, mais que isso, como mera sandice de um louco, enquanto, na verdade, o cerne da questão está para além disso. Ele é reflexo de todo uma instituição, ele é aquilo que ele representa. Suas palavras não estão soltas ao vento, estão muito bem amarradas em toda a estrutura institucional-acadêmica.
Dizer que música percussiva (leia-se, música afro-baiana) não pode ser considerada música, é uma agressão a todas/as aqueles que sabem de sua origem lá da mãe África e da riqueza que essa musicalidade tem. Dizer isso significa dizer que aqueles que "vão atrás do ilê" e "avisam lá que se juntarão ao Olodum que é da alegria", são espécies de acéfalos ou imbecis que estão indo atrás de nada. Fazer uma declaração dessas significa que nós não podemos resgatar aquilo que nos foi arrancado (a identidade negra) por que nossos batuques não são música, nossa cultura é exótica, nossas religiões folclóricas.
Não podemos também nos furtar do comentário mais descaradamente racista que é se referir às cotas como porta de entrada da contaminação do curso. É bom que lembremos ao Sr. Dantas, que o curso de Medicina, mesmo com as cotas, continua sendo o curso mais elitista e branco da UFBA e que lá existem poucas/os negras/os. Aquele curso é quantitativa e essencialmente branco. Mas quando o chicote quer açoitar, só acha lombos pretos, mesmo quando se sabe que, se alguma coisa está errada na casa grande, as sinhás e sinhozinhos ocasionaram o desajuste. Nina Rodrigues, embaixo da terra que já consumiu sua carne, regozija-se sabendo que fez escola deixando discípulos persistentes que, como brasileiros(por opção), não desistem nunca. Nós, como brasileiras/os(no RG) da escravidão, da exploração e da marginalização, também não desistimos nem cansamos de retrucar a cada ofensa racista que os versos loucos, porém bem ritmados em sinfonias de Bach, Mozart e Beethoven, nos tomam como alvo.
Mas agora estamos tranqüilas/os, afinal, em sua renúncia, em grande ato de nobreza, o Doutor deixou bem enegrecido: assim como Ali Kamel, Aguinaldo Silva, Lya Luft, Gilberto Velho, Yvonne Maggie, Caetano Veloso e todos os demais que assinaram a carta dirigida ao STF pedindo a inconstitucionalidade das cotas(e tantos outros que não assinaram)...ELE TAMBÉM NÃO É RACISTA. Foi tudo impressão nossa, alguns mal-entendidos e ruídos de comunicação. Ou somos pretas/os burras/os demais e não entendemos o recado ou deve ser culpa da nossa mídia...aquela que está sempre do nosso lado!!!