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segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Mulher Negra - Reflexu's

Eu tenho orgulho de ser uma mulher negra. Eu tenho kelê, eu tenho a dijina...


Saudosismo de um tempo que não vivi! Os sucessos da Banda Reflexu's me embalam, e o fato de eu estar ainda no colo de minha mãe quando seus hits estouraram, não atrapalham a minha nostalgia. Não deixo de pensar como seria a banda atualmente se ainda existisse. Talvez passasse pelas mesmas pendengas das bandas e blocos afros, mas que, assim como eles, não perdem o brilho.

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Ações Afirmativas e o marco histórico das discussões raciais.

Parabenizo cada militante negro que se dispôs a ir pro embate frontal com a lógica sistemática racista em prol da efetivação dos direitos sociais, do princípio da igualdade e da inclusão das negras e negros na sociedade brasileira ex-escravocata. Já alcançamos uma vitória, saimos do silêncio, paramos de discutir pra dentro e fomos colocar o dedo na cara dos verdadeiros opositores. A Política de Ação Afirmativa na Educação Superior veio como um divisor de águas da história brasileira em relação à postura estatal frente aos afrodescendentes esquecidos aqui depois do fim do tráfico negreiro e abolição legal da escravatura.
Não podemos esquecer que desde 1889 os negros trazidos nos navios negreiros e seus ascendentes esperam por inclusão nas políticas públicas e no acesso aos direitos sociais. Acredito que tenha chegado a hora e que nossa Suprema Corte Constitucional esteja sensível a isso.
O Poder Judiciário brasileiro vive um momento histórico ao colocar na pauta de discussões as políticas públicas voltadas à educação da população negra e indígena.

            O STF, corte suprema pátria fez em março do corrente ano uma Audiência Pública com especialistas de diversas áreas do conhecimento para discutir a constitucionalidade ou não das Cotas Raciais que estão sendo implementadas em universidades públicas do país. A proposta foi feita pelo Min. Relator da Ação de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF nº 186), Ricardo Lewandowski, que foi ajuizada pelo Partido Democratas alegando a inconstitucionalidade das políticas afirmativas na Universidade de Brasília.
O MINISTRO DO SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL RICARDO LEWANDOWSKI, Relator da Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental 186 e do Recurso Extraordinário 597.285/RS, no uso das atribuições[...] CONVOCA: Audiência Pública para ouvir o depoimento de pessoas com experiência e autoridade em matéria de políticas de ação afirmativa no ensino superior. No que tange à arguição de descumprimento de preceito fundamental, a ação foi proposta contra atos administrativos que resultaram na utilização de critérios raciais para programas de admissão na Universidade de Brasília - UnB. Os dispositivos tidos por afrontados são os artigos 1º, caput e III, 3º, IV, 4º, VIII, 5º, I, II, XXXIII, XLII e LIV, 37, caput, 205, 206, caput e I, 207, caput, e 208, V, da Constituição Federal. [...] O debate em questão consubstancia-se na constitucionalidade do sistema de reserva de vagas, baseado em critérios raciais, como forma de ação afirmativa de inclusão no ensino superior.[...] (ADPF 186, Min. Rel. Ricardo Lewandowski)
Diante da discussão posta, antes mesmo da Audiência, muitos juristas, sobretudo constitucionalistas, se permitiram sair do silêncio latente em que permaneciam quando se tratava desse assunto. Em manuais e cursos de Direito Constitucional passavam pelos capítulos dos Direito Fundamentais Sociais sem abordar o assunto, mas hoje se vêem impossibilitados de deixar passar despercebido pelo clamor do mundo jurídico e dos movimentos sociais que imploram por uma resposta aos questionamentos feitos pelos contrários e favoráveis às políticas afirmativas. Autores como Manoel Jorge e Silva Neto, trouxeram a discussão à baila e o citado jurista diz que:
Defende-se também que a ação afirmativa viola o princípio da igualdade porque contempla discriminação reversa (reverse discrimination). O termo surgiu nos Estados Unidos para criticar a ação afirmativa dos fundamentos de que as atuais gerações não têm responsabilidade com a discriminação praticada no passado. (SILVA NETO, 2008, p. 620)
            Contudo, essa não é a posição unânime de juristas, estudantes, ministros, juízes, leigos e cotistas[1]. Fundamentos históricos, sociológicos, legais, constitucionais e, sobretudo, ideológicos, são lançados à mesa e inseridos nessa discussão que remonta aos 510 anos de história oficial[2] do país, mas que só foi colocado em pauta nesse momento. E é se reportando à história que o supracitado autor, em mesma obra, coloca seu posicionamento: “E recorde-se que a mesma resistência oposta no passado às normas de direito social agora se opõe com relação às políticas afirmativas, seja aqui no Brasil ou nos Estados Unidos.” (SILVA NETO, 2008, p. 620)
Tendo isso em vista, comecei esse ano o meu trabalho de conclusão de curso em Direito colocando mais lenha na fogueira da discussão das ações afirmativas tendo em vista sua relevância associada ao momento ímpar em que o país vive na discussão de políticas públicas voltadas aos grupos sociais vulnerabilizados e marginalizados[3] pela história e que não foram, posteriormente, reparadas pelos danos causados pelo próprio Estado em momento histórico passado, mas não remoto.[4] Portanto, no trabalho que me dispus a elaborar, pretendo fazer um apanhado da discussão feita, colocando em foco o constitucionalismo brasileiro, sobretudo no que diz respeito aos direitos sociais, destacando os aspectos normativos, especialmente as normas programáticas frente à reserva do possível.
Espero trazer mais novidades e melhores informações da minha pesquisa.



[1] Termo vulgarmente utilizado para referir-se aos estudantes que ingressaram pelo sistema de cotas das ações afirmativas implementadas nas universidades públicas do país. Ou seja, quem entrou pelas cotas, chamar-se-á, vulgarmente, cotista. O termo é cotidianamente utilizado, apesar de não ter sido impregnado de preconceito, visto que foram os próprio estudantes ingressantes pelo sistema de cotas que adotaram o termo e hoje o utilizam como forma de auto-afirmação enquanto oriundos de colégios públicos e em sua maioria, negros, e não como mendicantes intelectuais.
[2] Oficial por que é a História que está nos livros, mas não necessariamente a única. Afinal, antes do “achado” de Pedro Álvares Cabral, aqui era terra de Índio e “todo dia era dia de índio”, como canta Jorge Ben.
[3] No sentido literal de colocados À margem da sociedade como se dela não fizessem parte.
[4] É recente, posto que não é remota, a história da escravização dos africanos e afro-descendentes no Brasil, além do extermínio e apropriação indevida das terras indígenas. Isso pode ser afirmada sem receio de pecado, afinal, se passam mesquinhos 188 anos da Independência do Brasil do colonizador Português e apenas 121 da abolição da escravatura.

domingo, 11 de abril de 2010

A COR DO AMOR

E o amor tem cor??? A prioristicamente, qualquer um responderia que não. Mas eu digo que sim! E digo que sim repassando mentalmente as discussões que ocorreram recentemente em uma lista virtual sobre as relações interraciais. 
O que faz um homem ou uma mulher pensarem no seu par ideal para manter uma relação? Todos aqueles adjetivos clichês aparecem: bonito, inteligente, educado, esforçado, trabalhador, militante, amoroso, elegante, etc. E optar por se relacionar com o outro nada mais é do que dizer que aquela determinada pessoa tem as características que você quer na medida em que você precisa, mesmo que depois de iniciada a relação você perceba que caiu em uma furada e a embalagem trazia um produto insoso ou mesmo amargo.
De toda sorte, por que homens negros, sobretudo os em melhores condições financeiras e sociais, optam raramente por se relacionarem com mulheres também negras? Talvez por que esses ideiais de beleza, inteligência, elegânciae até do amor mais romântico estejam desenhados em esculturas de cores claros, traços finos e cabelos lisamente sedosos. 
E com certeza, não irá faltar quem pergunte: e o amor? O amor não conta? Mas e eu respondo com umas outras perguntas: e o que é o amor? O que faz alguém se apaixonar por outrem se não a adimiração e idealização do que lhe é aprazível no outro, o conforto pessoal e emocional que aquela pessoa lhe proporciona e todas as outras flores dessa primavera sentimental?

Dizer que o amor tem cor não significa dizer que negras/os só devam se relacionar com negros/as e brancas/os só devam se relacionar com brancos/os por que a ninguém é dado o direito de simplesmente mirar o seu ofá de cupido apenas para os corações de mesma raça numa tentativa desesperada de evitar as relações interraciais. Mas se Kabunguele Munanga tanto nos trouxe acerca da descolonização do conhecimento, não podemos nos furtar dessas descolonização, inclusive, nas nossa relações. Por que eu, enquanto candomblecista e ex-cética não acredito em coincidências e certamente isso não é privilégio só meu.
O que não dá é pra criticarmos Ronaldo, Robinho e outros jogadores de futebol e pagodeiros por que eles saem da favela pra ser riqueza e fama e ao lado de casa um deles posam mulheres brancas enquanto quem está aqui embaixo discutindo exatamente esses padrões escolhidos por eles para carregar como mais um troféu, quando se está fazendo a mesma opção, ainda que não para ter um troféu, mas para ficar confortável no transitar desse ou daquele determinado espaço... ou mesmo por que se quer viver um romance e nossa literatura ainda anda pobre de princesas negras.

Podemos viver o amor que quisermos, desde que sem esquecer ou negligenciar os refenciais que cansamos de publicar em textos, músicas, poemas, discussoes virtuais e tudo o mais que cansamos de gastar em escrita e voz. Além de todos os nosso algozes históricos, temos nossos espelhos e nossos ecos.

domingo, 28 de fevereiro de 2010

Igbadu - A Cabaça da Existência

Durante a semana que me ative À leitura desse livro  a todo momento minha sensação em relação a ele mudava. Por vez sentia um conforto em ler estórias nagôs de forma amarrada como se tivessem uma sequência cronoógica exata, o que na nossa tradição oral africana é difícil de sincronizar. No entanto, esse mesmo  fato me causava certa desconfiança por perceber que o autor se excedia nas "amarrações" e tudo se tornava por demais romantizado.
Mas essa disparidade de sensações foi apaziguando ao passar das páginas à medida que eu fui ganhando discernimento e separando o joio do trigo.  Algo interessante e que merece enorme destaque é o tratamento dado a Exu que, apesar de outros diversos autores candomblecistas tentarem desmitificar sua demonização, aqui, Adilson de Oxalá (ou Awofá Ogbebara), traz as histórias de ira e vingança do digníssimo orixá com seus precedentes, ou seja, mostrando o porque de cada atitude tomado por Elegbara. Acredito que até muitos leigos em  matéria de religiões de matrizes africanas entenderiam o lugar fundamental desse orixá sem tomá-lo pelo vilão do Axé.
Mas já caminhando para a conclusão do livro, fui novamente surpreendida e dessa vez as surpresas me deixaram não só estarrecidas como decepcionada com tudo que eu havia lido até aquele ponto.

"Xangô era realmente muito belo. Seu rosto, de feições finas, era adornado por olhos amarelados como o mel e, quando seus lábios bem delineados abriam-se em generoso sorriso, deixavam à mostra dentes perfeitos, da cor do marfim." 

Essa passagem está no livro em parágrafo posterior aos que antes colocavam o citado orixá como o símbolo da beleza e perfeição estética masculina o que implica entender que para ser o símbolo beleza, permanecemos recorrendo aos traços finos e olhos claros da descendência européia. Ou alguém que leia um trecho desses consegue imaginar um homem africano?

No final das contas, o que parecia ir razoavelmente bem, se desmancha, O autor fez com as mãos e desfez com os pés e o que podia ser um best-seller da história africana, se tornou mais um livreto de versões de mitos nagôs.
 


sábado, 20 de fevereiro de 2010

RELATOS DE (PÓS) CARNAVAL - Por que no Ilê não (deveria) sai(r) branco

O Ilê surgiu com a proposta de dar uma resposta aos blocos carnavalesco que não permitiam que negros participassem de seus blocos. No tempo das mortalhas e mamãe-sacodes pra trás pedia-se, inclusive, foto para associar-se aos blocos e cada "ficha" passava por avaliação a fim de se escolher quem podia e quem não podia entrar em determinada agremiação. 
Para além disso, e principalmente, o Ilê e outros blocos afros surgiram para elevar a estética corporal e cultural dos negros em diáspora jogados aqui nesse grande quintal de América. Portanto, se é pra falar e mostrar estética e cultura Afro, nada mais justo que nós mesmos o façamos. Afinal, nós não precisamos passar procuração pra branco nenhum, como se já não bastassem as indevidas apropriações que Danielas Mercurys e Cia Ltda fazem por ai.

Se quiser curtir cultura afro, é só descer pra Barra que nossa amada Dani diz que a Cor dessa cidade é ela, o canto dessa cidade é dela e ninguém disse o contrário. Se quiser curtir candomblé elétrico, você também pode ir reverenciar Oyá chamando egun na rua... "oyá te te...oyá te te, oyá.."
Assistimos Chiclete, Ivete, Asa e tudo o mais da pipoca, por que vocês não podem assistir o Ilê do lado de fora também? A gente sente os empurrões o tempo todo e vocês não podem?!
Não sai branco no Ilê por que se a gente dá o dedo, vocês tomam o corpo, os turbantes, os tambores e o resto todo.

Cada um no seu cada um, deixe o cada um dos outros. Já chega de apropriação da nossa cultura.
Agradecemos muito a reverência de vocês ao que produzimos, mas antes de reverenciar, vocês vaiaram bastante e agora que há uma possibilidade de rentabilidade, também não dá pra passarmos para as suas mãos.

Além disso, apesar de todos os ganhos de espaços que tivemos, nossa cultura ainda é tido como exótica. E nossas roupas coloridas e turbantes enormes não são fantasias de carnaval de marchinha pra tirar foto e achar graça no dia seguinte. Nossa roupa é "a simbolização do negro africano", é o resgate da nossa ancestralidade e é a repatriação que não pudemos fazer adentrando navios (ou aviões) de volta pra África. É a repatriação no nosso coração palpitante e nossas negras peles arrepiadas, o resgate da musicalidade africana nos tambores afro-brasileiros.

Certamente qualquer branco que leia tudo isso achei que há um tom muito passional para falar de roupas coloridas. Se é isso que você sente, é justamente por isso que você não pode sair no Ilê. Por que os pretos sabem do que estou falando e é isso que o fazem pertencentes ao tapete negro na avenida. Pertencimento que branco nenhum sente nem vai sentir. Se você entende e sente isso, mesmo tendo pele clara: hora de acordar e despertar pra sua identidade.

Só pra ficar mais elucidativo, vamos rememorar aqui o Gandhy. Olhe quanto filho-de-papai desce de seus apartamentos da Graça pra vestir a roupa branca e "pegar mulher" trocando colar por beijo??
O tapete branco aumentou, mas a essência tá se perdendo por causa deles, os brancos que não sabem nem por que foi que o Gandhy surgiu e enchem o pescoço de diloguns e monjilós brancos e azuis comprados em feiras misturados aos colares profanos pra trocar por beijo. Pergunte a algum deles o que é um Padê pra se perceber como não tem dimensão do que é a história daqueles antigos associados/fundadores. Ninguém vai lá dar de comer a Exu e a avenida vem trazendo a cada ano um número maior de corpos inflados a bombas em busca de desordem e Elegbara não deixa por menos: o tapete branco está a todo tempo sendo manchado de sangue.

Se querem mais exemplos, vamos ver o que aconteceu com o Comanche. Confesso que não acompanhei como se deu a história e os desdobramentos de desgastes da Associação, mas fiquei estarrecida ao ver o trio passando com uma banda de pagode e 3 mulheres de tanguinhas "todas enfiadas" simbolizando o povo indígena, mas precisamente, os Comanches. Acho que me deu até uma ponta de ciúmes ao vê-las quebrando até o chão, queria que isso ficasse só pra mim e mais umas dezenas que mulheres que não precisam representar a cultura indígena no carnaval.

Isso tudo mostra o quanto é difícil resistir culturalmente no pseudo-carnaval-da-diversidade. No Ilê não sair branco é também mecanismo de defesa e, sobretudo, resistência. 
No carnaval do Ouro Negro, a preciosidade é de Aluvião.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

RELATOS DE CARNAVAL (II) - Guiguio sauda Léo Santana

E lá vem o tapete negro descendo a avenida sete, passando pela Casa de Itália. Lá vai o Parangolé tocando o hit do carnaval e, de repente, no meio dos tambores, se ouve Guiguio gritar: "É isso ai, meu irmão. Parabéns pra você, Léo que está chegando com tudo trazendo o som do guetho para as paradas de sucesso do carnaval. Rebolation também é som da negrada!!!"
Certo que não foram exatamente essas as palavras, mas o sentido está perfeitamente descrito. O que se pretendeu foi elogiar e lembrar que aquele gostosão que arrasta a massa rebolando também é parte do Ilê Aiyê, do mundo negro, que ele saiu de alguma quebrada para estar ali em cima daquele caminhão cheio de caixa de som e que para tanto teve muito que suar.
Achei interessante, para além do que foi dito, a espontaneidade com que Guiguio se pendurou na grade do seu trio para acenar e saudar aquele jovem preto que tava lá do outro lado "no rebolation tion tion". E depois, só aplausos, inclusive os meus!

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

RELATOS DE CARNAVAL (I) - Pipoca com Chiclete

Segunda-feira de Carnaval, circuito Osmar, bloco desce, bloco sobe e o Camaleão passou levando seus ricos foliões que desembolsaram mais do que eu ganho no mês pra passar 3 dias ao som de Gu dá dá com a cara cheia de protetor solar e feição apática.
E olhando não tem como não perceber que quem curte De verdade o Chiclete é quem está ali beirando ao corda, tomando empurrão e revidando com uns socos e alguns logo logo levados pela rótamo, rondesp, caatinga serrena... qualquer da roupa marrom em sua mais variadas tonalidades e níveis de truculência.
Chiclete volta e eu lá de cima do apartamento, olho pela janela e só vejo uma fileirinha de abadás laranjas espremida em meio a uma massa. Sim, a pipoca engoliu o chiclete!!! Acho que foi a cena mais linda e mais emblemática que vi em todo o carnaval. A massa excluída respondendo à altura e espremendo aquela massa pálida e sem fôlego, mostrando de quem é a cidade e de quem (pelo menos) deveria ser o carnaval.
Seria uma delícia de se ver se, logo também não se pudesse notar que a PM resolveu trabalhar de cordeira do Chiclete posto que fez um nada discreto cordão de isolamento entre o bloco e a pipoca.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

21 de Janeiro – Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa

Uma homenagem a Mãe Gilda de Ogum, que representa todos os adeptos de religiões de matrizes africanas que passaram e passam por situações de opressão no exercício de sua fé. Esse foi o fundamento da edição da Lei que decreta que o dia 21 de Janeiro é o Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa.
Apesar do episódio emblemático que deu origem à data e que é apenas um dos exemplos dos muitos ataques que os religiosos de matrizes africanas passam, combate à intolerância religiosa exige que façamos uma reflexão minuciosa no nosso dia a dia.
Certa feita um amigo me perguntou por que eu não aceitava os folhetos que os evangélicos distribuíam. Apesar de haver quem entendar ser “intolerância às aversas” (esse negócio de preconceito invertido pegou mesmo!!!), não o é. O fato é que, ao distribuir aquele folheto, aquele religioso cristão está querendo me vender o Deus dele e Deus não se vende, pelo menos não na minha religião que é a religião dos escolhidos. E entendam por escolhidos todos aqueles africanos em diáspora (ou não) que sentem e tem a presença espiritual advinda de um ilê, centro de mesa branca, abassá ou o que o valha. Os escolhidos, para nós, não são os salvos do juízo final e sim os prestigiados pela herança africana ancestral.
De todo modo, voltando ao assunto, a questão é que eu não preciso daquele folheto se eu não estou à procura de um Deus nem de uma salvação, posto que já estou salva. Na verdade, acho insulto. No momento em que você tanta convencer o outro da perfeição e imprescindibilidade de seu Deus você está negligenciando e menosprezando toda e qualquer outra forma de manifestação de crença no divino. A propósito, eu não ando distribuindo contas por ai.
O dia 21 de janeiro representa cada conta que colocamos no pescoço, cada sexta-feira que vestimos branco, cada benção que a gente pede e cada cristianização que a gente rejeita. Afinal, todos nós viemos de um histórico de cristianização natural no país em que nascer e ser batizado faz parte da trajetória de qualquer criança e a opção religiosa só vem depois da crisma, quando se faz a primeira decisão: continuar o não católico; e, só depois, se pergunta e se dá a oportunidade de experimentar outras faces do divino.
Se Jesus Cristo morreu para a redenção de seus filhos, Mãe Gilda de Ogum morreu em prol de nossa libertação mental das garras das instiuições e sociedade racista e perseguidora das religiões de matrizes africanas.

Que Ogum mesmo esteja conosco, abrindo nosso caminhos.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Haiti – suas crises também são minhas

Como africana em Diáspora, tanto quanto os afro-haitianos, cada cara de dor estampada nos tablóides me causa um incômodo desconsertante como quem acaba de ver um parente passando fome e está sentado à mesa posta e farta.
Mas não é a dor de ver o sofrimento e desespero deles, é o desconforto de quem não está fazendo nada diante daqueles açoites que marcam a carne ainda hoje.
O que aconteceu no Haiti pode ter sido catástrofe natural, mas o tratamento pós-desastre é que nunca vai ser comparado ao que se daria a qualquer terra loira européia que tivesse passado por algo parecido. Afora as explicações cientifissíssimas que foram dadas pelo pastro norte-americano que associou a desgraça haitiana a pactos com o demônio em prol de sair das algemas da colonização francesa. E o Cônsul? Macumba amaldiçoou aqueles povos e as religões de matrizes africans mais uma vez são responsabilizadas pelos males do mundo à revelia de seus praticantes. E Arnaldo Jabor? Povos primitivos e bárbaros. Primitivos, sim, posto que primitivo é o que vem primeiro e somos mesmo os primeiros habitantes desse mundo e toda linhagem da raça humana de nós surgiu (vou acreditar que ele usou o termo nesse sentido). No entanto, bárbaros não somos, nem nunca fomos, afinal, esse não foi o povo deorigem germânica que invadiu o Império Romano séculos atrás? O não enfadonho e intelectual Jabor devia saber disso, sobretudo por que esse povo tá mais lá pras bandas do sangue dele, do que do nosso.
Todo dia um vídeo, uma foto, uma notícias e uma dor nova. E os braços atados, como doem. Doem como de os ossos de meu coração invertebrado, de repente, estivessem torcidos.
Doações, cartas públicas de solidariedade, notas de repúdio ao Cônsul, adoção de crianças órfãs, embarque para ajudar os feridos e desabrigados: tudo em plena validade. Só não sei do despertar do amanhã na História desse país. Aquele a quem, depois da exploração, só restou o desprezo da comunidade internacional, agora tem sobre si os olhos do mundo para ver a sua derrocada fatal.
E eu?
No âmago da minha inutilidade, choro!
Ou:
penso no Haiti, rezo pelo Haiti!
Isso por que suas crises são tão minhas que, como ele, também não sei pra que lado vou.

domingo, 17 de janeiro de 2010

E quem é mais militante que ele?

Dormi pensando naquela imagem, a imagem de meu velho pai. Aquela pessoa por quem durante muito tempo não sabia o que sentia, mas acho que não sentia nada… a indiferença.
De repente vi bulinar aqui dentro um amor que não sabia que sentia ou talvez tenha surgido agora, por que é forte como nunca tinha sentido antes por ele. Talvez o orgulho e a insistência dele em um bom relacionamento tenham fomentado isso. Não sei ao certo, mas o fato é que é isso: um amor muito grande. Talvez isso causasse estranheza em qualquer pessoa posto que amor paterno é quase sempre natural e coloco o “quase” por que eu mesma já estou nessa exceção.
Só sei que ontem acordei feliz e tranquila como uns bons banhos de folhas e outros ebós têm me permitido ficar. Me planejei toda e, nos meus planos, não ficou de fora a ida ao Shopping comprar um presente lindo para meu pai que há anos não presenteio. E apesar de parecer normal, tendo em vista ser o aniversário dele, se tratando de nós dois, não é. Isso por que, sendo de veneta como só eu sei ser, só dou presentes a quem quero, quando quero e se quiser muito. O que acaba me fazendo ir a aniversários de familiares de mãos vazias e, num domingo qualquer de agosto, aparecer na casa de uma prima com um perfume que achei que seria a cara dela, mesmo seu aniversário sendo em janeiro. (e talvez em janeiro eu chegue de mãos vazia!!!)
Enfim, programação feita e cumprida, lá vou eu e meus contreguns pra evitar carregos alheios e um belo presente em mãos. Encontro irmãos, tios, primos, meio mundo de parentes que falam comigo como se eu fosse velha conhecida e ainda dizem sentir saudade. Fico feliz, mesmo sabendo que metade é falsidade e a outra é loucura. Mas eu gosto, gosto do clima familiar (que inclui, obviamente, a já citada falsidade), gosto daquele pagodão rolando no som, homens, mulheres, crianças e as véias fogosas todas quebrando até o chão. Uma delícia!!!
Saí de lá a contra-gosto, por causa do horário e pela falta de um carro que me atormenta. Queria ter ficado pra assistir mais um pouco daquele sorriso cansado de meu pai que, mesmo fadigado, não conseguia esconder o contentamento em me ver envolvida com todos. Por trás, algums outros motivos dignos da mais plena felicidade.
Espero que ele tenha feito essa reflexão, mas acho que não o fez: o fato é que lá, diante de mim, em meio ao pagodão das véias fogosas, estava um homem completando 50 anos, com 6 filhos que não foram perdidos pela marginalidade, nem para uma bala achada de algum revólver policial, com um diploma de Bacharel em Direito em mãos e às vespera de fazer sua prova da OAB. Ali não estava só aquele Geraldo, meu pai e que eu tive diversos impasses durante os 21 anos de minha vida. Ali estava o homem preto da comunidade de itapuã, que subia e descia descalço para a praia, que tem 5 irmãos que alcançaram, no máximo, o ensino médio. Ali está o homem que cresceu com os primos de milhares de graus que nunca tiveram nenhuma perspectiva de adentrar a Academia por que sequer têm a verdadeira noção do que aquilo significa, qual sua importância ou razão de ser e até acham que aquilo não é pra eles: preferem suas redes de pesca, suas barracas de praia, seus subempregos e ai se vai a perpetuação da marginalização dos nosso negros na sociedade dos diplomados brancos.
Um homem negro de 50 anos estar vivo, por si só, já é grande motivo de contentamento diante das intempéries pelas quais nossos negros e negras têm passado, sempre achando quem lhe aponte o dedo, senão uma arma.
E um homem negro, aos 50 anos conseguir realizar seu sonho de ser Advogado é de se tomar por referência, inclusive por que, ele esteve na vanguarda de seu tempo já pelo simples fato de ter sonhado com isso e mais ainda por ter percebido que essa podia ser uma realidade palpável.
Mas ninguém mais precisa toma-lo como referência por que ele já o é para todos aqueles que estiveram do seu lado na boêmia juvenil pelos bares de Itapuã, para seus irmãos, seus sobrinhos, filhos e até seu neto de 2 anos (que, no tempo certo, vai entender a dimensão disso).
E no final de tudo, ele é mais militante do que qualquer delegado das plenárias do CONNEB, do que qualquer conferencista do CONSEG, do que todos os secretários e ministros que passaram pela SEMUR, SEPROMI e SEPPIR. Isso por que foi ele quem abriu o universo de possibilidades de todas aquelas pessoas com quem tanto ele subiu e desceu e estavam ali naquele pagodão bebendo, não o seu defunto, mas sua vitória, sua satisfação, o novo homem que se tornou, com direito a beca, colação de grau, anel no dedo e choro, mesmo tendo adquirido o hábito da leitura lendo jornais velhos achados na feirinha de itapuã com seu peculiar cheiro de peixe e mar.
Subimos e descemos discutindo tudo que achamos pertinente e nos achamos grandes militantes, mas mal sabemos qe os militantes de verdade estão ali do lado, na labuta, pra sair de algumas estatísticas de mortalidade, violência, pobreza, miserabilidade, analfabetismo, sub e desemprego para entrar nas estatística que tanto discutimos nos GTS de nossos infidáveis encontros e conferência.
Em homenagem a meu pai: José Geraldo Ramos, da comunidade de itapuã, 50 anos, bacharel em Direito, pai de 6 filhos vivos e sem passagens na polícia.
In memorian a minha mãe: Gildélia Batista Pires, da comunidade de Castelo Branco que a vida foi ceifada pelo destino enfadonho, mas que foi, durante os mais de 20 anos de relacionamento, a mulher negra que militou mais do que meu pai e, inclusive, também é grande responsável pelo se sucesso, mas que não teve tempo de escrever seu pedacinho na história.